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CASA

A lei em casa era:
"corre atrás"

Minha mãe repetia a frase; a vida cuidava da aplicação. Perdi meu pai aos seis anos, e ela ficou viúva com três filhos pequenos. Ali, muito antes da faculdade de Direito, aprendi que segurança não se presume. Dinheiro podia significar tranquilidade ou medo, liberdade ou dependência. Eu conheci essa diferença cedo.​

A integridade materna, para mim, possuía a força de cláusula pétrea. Décadas depois, um teste de pontos fortes colocou justamente a integridade em primeiro lugar. O teste apenas formalizou o que eu já carregava comigo. Antes de aprender a ler códigos, eu já tinha aprendido a não perder o norte.

Aos quinze anos, saí de casa. Hoje, quando olho para trás, enxergo ali um precedente importante: diante do que me exige uma escolha, minha tendência nunca foi esperar que alguém decidisse por mim.

Aos quinze anos, saí de casa. 

Depois escolhi o Direito e me formei pela PUC-Campinas, em 1995. Quando recebi o diploma, ainda não conhecia as mesas em que me sentaria pelos trinta anos seguintes. Mas já trazia um código anterior a qualquer diploma: integridade como limite, intuição para ler o que não estava escrito e coragem para sustentar as minhas decisões.

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O NORTE
COMEÇOU
EM CASA

MESA

Uma mesa de negociação distribui, mais do que cadeiras, poder

Entrei no Direito defendendo bancos. Cedo aprendi: mais do que cadeiras, uma mesa de negociação distribui poder.

 

Em 1996, coordenava a área de contencioso de instituições como Citibank, Real e Banespa. Sem os atalhos que via ao meu redor, muitas vezes entrava na sala sob desconfiança. Quantas vezes sentei à mesa como a única mulher? Não tenho calculadora para essa conta. À competência de uma mulher nunca se concedia presunção. A prova precisava ser renovada, reunião após reunião.

 

Minha alçada cresceu. Do contencioso, avancei para contratos, societário, aquisições e planejamento empresarial. Em 2005, assumi a Diretoria Jurídica da CSU e participei da reestruturação da companhia para o IPO. O Direito saiu dos autos. Passou a interferir na estrutura da empresa, no capital, no risco, na reputação — e nas decisões que definiriam o futuro do negócio.

 

No agronegócio, cada cláusula tinha lastro em terra, safra, crédito e risco. Estruturei crédito e garantias, negociei operações com commodities, acompanhei recuperações, due diligences e regularizações fundiárias e ambientais. Na Vision Brazil, coordenei a área jurídica ligada aos fundos de agronegócio. Ali, a leitura de um instrumento exigia muito mais do que domínio das cláusulas: era preciso entender o devedor, a origem do pagamento, a consistência da garantia, o risco escondido na operação e, principalmente, aquilo que papel algum registrava.

 

{Fernanda: em que ano você se casou? Em que ano a Júlia nasceu e em qual ponto dessa trajetória você estava? O que a maternidade alterou na sua relação com carreira, ambição, dinheiro e independência? Há algum episódio desse período que represente bem a conciliação — ou o conflito — entre maternidade e carreira?}

 

Ao encerrar esse ciclo, em 2016, meu raciocínio já não cabia apenas no jurídico. Crédito, operação, risco, contrato e estratégia sentavam à mesma mesa.

 

Da faculdade, levei a técnica jurídica. Do mercado e da experiência nos tribunais, nas lavouras, nos escritórios com ar condicionado, a leitura do que a lei, sozinha, não alcança. Quanto maior a operação, mais variáveis entravam no mapa, sem mudar o meu norte.

 

A próxima cadeira mudaria o peso da minha assinatura: da análise para a decisão.

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ESTRATÉGIA

TAMBÉM

SENTA À MESA

CADEIRA DE DECISÃO

Parecer admite ressalvas;
decisão produz consequência

 

Em 2016, minha assinatura adquiriu mais densidade. Ajudei a erguer a Quasar desde o primeiro dia: constituição da empresa, aprovações regulatórias, fundos, operações de crédito, garantias, jurídico e compliance. No início, o organograma explicava pouco da rotina. Eu cuidava do regulatório, do financeiro e do caixa; fazia o café, despachava o correio. Empreender me colocou diante do olhar de toda a empresa, inclusive das tarefas que não têm glamour algum, mesmo com um cargo chique.

 

Em 2020, assumi como CEO. A partir daquela cadeira, acionistas, clientes, equipe, cultura, conflitos e estratégias diferentes desembocavam na mesma instância. Parecer admite ressalvas; decisão produz consequência. E alguém precisa assinar embaixo.

 

Na cadeira de decisão, a bússola deixa de orientar apenas quem a segura: outras pessoas passam a depender daquele norte.

 

{Fernanda: qual decisão da época de CEO melhor representa, para você, o peso dessa cadeira? Alguma decisão em que você soube que não existia saída perfeita e, ainda assim, precisou escolher? Quantas pessoas trabalhavam na Quasar no auge?}

 

Também aprendi que a linguagem do poder muda conforme quem fala. Durante anos, muitas mesas tinham uma única mulher: eu. Um homem que mantinha uma posição com firmeza recebia o adjetivo “assertivo”. No mesmo tom, eu ouvia “dura”, “brava”. Minha resposta não passou por baixar a voz, antes por conferir autoridade a ela. Aprendi a falar menos, escutar mais e construir o raciocínio até o ponto em que, quando eu falava, a sala parava para ouvir.

 

A mesma força que abriu espaço na carreira também exigiu revisão. Terapia, autoconhecimento e espiritualidade se tornaram, para mim, instâncias de recurso: os lugares onde eu podia rever minhas próprias sentenças. Durante muito tempo, adaptei minha forma ao ambiente para sobreviver nele. Anos depois, consegui formular com clareza o que aquela experiência vinha me ensinando: “firmeza não é sinônimo de dureza.”

 

{Fernanda: houve algum episódio específico, ainda na Quasar, em que você percebeu que a dureza que ajudara a protegê-la já começava a cobrar um preço?}

 

Depois de tantos anos decidindo operações, riscos, conflitos e rumos empresariais, outra decisão se aproximava. Eu já sabia decidir por uma empresa. Precisaria decidir como queria viver a segunda metade da minha vida.

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TODA DECISÃO
TEM UM NOME EMBAIXO

VOLTAR PARA CASA

A segunda metade da minha vida eu
viveria de outra forma

Em março de 2024, com a venda da gestora, encerrei meu ciclo na Quasar. Quem assumiu queria que eu seguisse junto, mas a minha decisão já apontava para outra direção. Eu sabia no meu íntimo que a segunda metade da minha vida eu viveria de outra forma.

 

Antes de abrir um novo processo, precisei revisar os autos do anterior. Tenho esse hábito: encerrar ciclos tentando entender o que aconteceu, quais padrões merecem atenção e o que quero levar comigo. 

 

Quando voltei a pensar no trabalho, impus uma nova cláusula: o modelo precisava fazer sentido para mim, eu queria “falar a partir do meu coração”. Depois de três décadas em ambientes jurídicos e financeiros, meu desejo era reunir a executiva, a advogada e a empresária ao meu lado espiritual e de autoconhecimento, sem obrigar nenhuma dessas dimensões a esperar do lado de fora enquanto uma tivesse a prevalência sobre a outra.

 

Nesse período, uma imagem ganhou outro significado para mim: voltar para casa. Não para o endereço de onde saí aos quinze anos, mas para o meu próprio centro. Durante muito tempo, adaptei dureza, postura e linguagem aos ambientes em que precisava me afirmar. Quando já não precisava provar que conseguia sobreviver ali, pude formular algo diferente: “agora eu posso voltar para casa e voltar…para um futuro diferente”.

 

{Fernanda: você quer trazer para esta parte a separação e a volta para São Paulo em 2026? Se sim, o que essa mudança representou para você além da mudança de endereço? O que terminou ali e o que pôde recomeçar?}

 

Hoje, na Franco Advisor, reúno saberes que durante anos apareceram separados no currículo: Direito, crédito, governança, gestão, negociação e estratégia. Somo a eles a experiência de quem já respondeu pela decisão — diante de sócios, clientes, equipes, riscos e patrimônio — e a escuta que levo para conselhos e mentorias. Minha atuação parte da estrutura jurídica e alcança o negócio e as pessoas que precisam sustentá-lo.

 

Passei décadas sentada às mesas em que decisões relevantes eram tomadas. Depois, ocupei a cadeira em que elas desembocavam. Hoje escolho também o lugar ao lado de quem decide.

 

Depois de tantos mapas, mudanças de rota e decisões, a bússola aponta para o mesmo norte que aprendi em casa: integridade para escolher o caminho e coragem para correr atrás dele.

A BÚSSOLA

APONTA PARA

O MESMO

NORTE

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